Ao estar em uma famosa loja de brinquedos em um shopping de nossa capital, uma voz alegre me chamou atenção. “Papai, pai! Papai, é eu?” Falava uma belíssima e sorridente garotinha de aproximadamente três anos de idade que inocentemente ainda não dominava a língua portuguesa. Aquele jeitinho doce me contagiou, foi então que decidi observar aquela situação. Saltitante, a linda menina de cachinhos bem encaracolados, trajando blusinha vermelha e sainha amarela brincava encantada com os artigos da loja. A pequena que chamarei de Cachinhos de Anjo se engraçara por uma boneca maior que o seu tamanho. Ao abraça-la, Cachinhos de Anjo abriu um sorriso no rosto e mais uma vez indagara ao seu pai. “ Papai, papai! Papai é eu?” E o papai pacientemente respondia: “Sim, filha. É você!” Cachinhos de Anjo perguntara incansavelmente mais uma vez: “É biíta, papai? É biíta, papai?” “Sim, é bonita, filha”, respondia o pai com uma aparência nada satisfeito.
Cachinhos de Anjo abraçou a boneca, deu-lhe um beijo, risadinhas gostosas e correndo por todos os cantos foi em direção à outra boneca, e mais uma vez as perguntas se repetiam ao seu papai. Essa alegria de Cachinhos de Anjo passava despercebida pelas pessoas que ali estavam. Certamente a alegria daquela pequena criança pouco importava na vida dos demais, pois em nenhum momento alguém parou para fazer-te um carinho ou dar-te um sorriso diante de sua alegria. As vendedoras da loja estavam “ocupadas” ou talvez porque o seu tempo era precioso demais ou então, Cachinhos de Anjo não fizesse parte de seu convívio social, do faturamento mensal de sua porcentagem.
Ao ficar algum tempo observando resolvi me aproximar do pai da criança e após alguns minutos de conversa perguntei: “Como você se sente ao ver que o comercio não investe em brinquedos os quais os seus filhos tenham como referências?” “Eu vivo em uma sociedade a qual eu não sou levado em consideração, a qual eu não pertenço. Todos os dias eu tenho que provar para eles que eu existo. Que me respeitem. Você não imagina o quanto eu sofro como pai, como educador. Veja ao redor dessa loja quantos brinquedos lindos e maravilhosos, de encher os olhos, mas, porque não tem uma parte destinada para a gente? Até quando minha filha terá que brincar com bonecas brancas?” desabafa o pai que não quis se identificar.
A realidade desse jovem pai negro é semelhante a milhares de outras famílias que anonimamente se sentem excluídos e vítimas de preconceitos por não encontrarem disponível no mercado e lojas de brinquedos produtos voltados para a sua raça. A taperense Rosivânia, filha de Zé de Mané, sabe muito bem o que é isso desde a sua infância quando sonhava em ter uma boneca da sua cor e não tinha. Rosivânia conta que essa vontade se estendeu para os seus filhos e que até hoje nunca encontrou em São José da Tapera bonecas da cor negra.
Foi em uma visita a cidade de Olho d´Água das Flores que Rosivânia, por acaso, se deparou com uma boneca pequena de cor negra. Para a Taperense esse momento a transportou para o passado trazendo daquela época as boas lembranças de sua infância. “Quando eu vi a boneca pretinha pela primeira vez, da minha cor, eu fiquei tão feliz que comprei para minha filha, mas no fundo era pra mim, para eu realizar um sonho de criança, pois eu sempre sonhei em ter uma boneca que fosse a minha cara e nunca encontrei. Quando eu ia brincar com minha filha eu me imaginava criança," relembra a dona de casa e mãe de quatro filhos.
Ao ser questionada sobre se ainda existe preconceito de cor, ela rebate. “É uma falta de respeito. As pessoas dizem que não tem preconceito com a gente, mas no fundo elas têm. Isso poderia não acontecer. Somos todos igual perante a Deus. As pessoas não poderiam se julgar só porque são mais ricas que as outras. Quando morremos vamos pra debaixo da mesma terra e no caixão não dá pra levar nada, fica tudo," finalizou.




