A família de uma adolescente, de 16 anos, gestante do seu primeiro filho, acusa o médico Geraldo Pinto, da rede pública de saúde de São José da Tapera, de negligência médica.

De acordo com familiares, a jovem estava com o bebê mexendo normalmente, mas em consequência do uso da medicação diazepam, passada pelo médico  para conter a pressão alta, a gestante só dormia e não estava mais sentindo o bebê mexer em sua barriga como de costume.

Em seu sexto mês de gestação, mesmo não sentindo dores, a mãe da jovem, Sandra Maria dos Santos, conta que foi com a filha até o hospital para saber se estava tudo bem. Após o bebê ser auscultado pela plantonista, Vandilma Ramos Barbosa, a filha foi encaminhada para o Hospital Regional de Arapiraca, onde foi medicada e teve alta.

Ao retornar para São José da Tapera, no dia seguinte, mais uma vez os familiares procuraram atendimento médico. A menor fez mais uma ultrasonografia com o doutor Hermes Carlos de Lima Júnior, com o diagnóstico de que seu filho ainda estava com vida.

Após o exame, a jovem foi encaminhada mais uma vez. Ao chegarem no Hospital Universitário, em Maceió, o médico constatou o que os familiares já desconfiavam, o bebê já estava morto. Após a confirmação, a gestante foi transferida para a Maternidade Santo Antônio e permaneceu sete dias, onde seu bebê nasceu por parto induzido.

 “Foi o médico que acompanhava ela no pré-natal, por isso, a gente pensou que tava tudo normal. Mas quando ela não sentiu o bebê se bulir e a Vandilma disse que o coraçãozinho tava batendo sim, fraco mas tava e o médico de Tapera disse a mesma coisa, já fiquei desconfiada que tavam mentindo pra gente," afirma Sandra.

"O pior foi viver com esperança do meu netinho estava vivo esse tempo todo" desabafa ressaltando que em todos os hospitais que os familaires foram encaminhados os enfermeiros constataram que a criança já estava morta.

" E porque só em Tapera que diziam que a criança tava viva?”, questiona a avó do bebê.

Revolta

A família da menor está indignada com a morte da criança, visto que, há dois anos, um outro bebê na família também nasceu morto pela demora no atendimento. Esse trauma causou transtorno na família. “É muita dor. A gente quer esquecer e pensar que foi pesadelo. Minha filha chora todas as noites lembrando do filhinho dela. Os peitos cheios de leite sem poder dar de mamar. É uma tristeza na minha vida,” lamenta dona Sandra, acalentando a filha que ainda segura no colo as roupinhas compradas para seu filho. 

“As pessoas são malvadas, sem coração e faladeiras. Tão dizendo que era pra eu deixar pra lá. Que não vai dar em nada! Que somos pobres e vai sobrar pros mais fracos. Deixar porquê? Se fosse a filha deles queria saber se eles nao queriam justiça!” questiona Cristiano Silva Pinto,  pai da gestante com lágrimas nos olhos.

Outro caso

Há poucos menos de 90 dias, Gilvania Santos Matos, 22 anos,  veio de São Paulo, onde mora com o esposo, para terminara a gestação de sete meses aqui na casa de sua mãe. Fez o pré-natal e a última ultrassonografia constava que a criança estava bem.

De acordo com a Edivania Santos Matos, mãe da gestante, diante de complicações na gestação de sua filha, o doutor Hermes Carlos de Lima Jr pediu, em uma consulta particular,  para a gestante procurar o encaminhamento o mais rápido possível, pois seria caso de cesárea porque o seu bebê era pélvico, ou seja, estava sentado e não teria possibilidades dela ter normal.

Ao procurar a enfermeira Walesssia Fernandes no Programa de Saúde da Família, PSF, Edvania conta que a enfermeira Lea [como é conhecida na cidade], disse que não poderia mais atendê-las porque estava de saída, mas elas poderiam voltar na próxima semana. Uma semana depois, a família foi mais uma vez e a enfermeira ligou para a doutora Jária Ricardo e disse que para completar os nove meses, ainda faltava uma semana. E mais uma vez a gestante esperou para ser atendida dias depois.

Na data marcada a enfermeira auscultou a gestante e percebeu que o batimento do coração do bebê estava fraco. Ao encmainhá-la para a doutora Jária, ela também diagnosticou o mesmo e encaminhou imediatamente  a gestante para o Hospital Geral do Estado (HGE), Arapiraca. Ao chegar no hospital o médico plantonista disse que o coração não batia, mas para ter uma certeza um nova ultrasonografia foi feita pela gestante que comprovou que o bebê ja estava morto.

“Se minha filha tivesse sido encaminhada com urgência como o doutor Hermes mandou, nada disso teria acontecido. A historia desse hospital é mandar o povo ir embora e voltar quando tiver sentindo dor, ” afrma.

A família acusa o Hospital Municipal Ênio Ricardo Gosme de São José da Tapera de negligência médica e que vai procurar seus direitos.

“Eu saí de São Paulo para poder ficar mais próxima de minha mãe e ter meu primeiro filho aqui porque pensava que estava em segurança e meu filho morre por irresponsabilidade no atendimento. Isso é um absurdo! Não durmo direito. Choro todos os dias pensando em meu filho. Meu esposo ficou em tempo de enlouquecer. Só quem é pai e mãe sabe a dor que estou sentindo! Eu sei que nada vai trazer meu filho de volta, mas o que nós queremos é justiça! “revela Gilvania.

O caso de Gilvania era uma gravidez de risco e a cesariana para retirar a criança era a única alternativa. Gilvania foi submetiva ao procedimento cirúrgico para a retirado do feto morto. O bebê foi enterrado em São José da Tapera. Ela espera a recuperação da cesariana para depois  voltar á São Paulo.

Ao ser procurada pela nossa reportagem, a Secretária Municipal de Saúde, Jária Ricardo já tinha conhecimentos dos dois casos. “As duas gestantes passaram por mim e nas consultas foi possível ouvir o coração dos bebês batendo.” Com relação a grávida de 16 anos que foi medicada com diazepam, a Secretária Municipal de Saúde disse que esse tipo de procedimento adotado pelo doutor Geraldo não é fora do comum. As grávidas podem sim, tomar diazepam desde que seja indicada pelo seu médico.

 “Existe o fator risco benefício. Essas gestantes estavam sendo assistidas pelo município e todo suporte foi dado a elas. Eu mesma, desde que fiz residência em Brasília já receitei muito diazepam as minhas grávidas. As pessoas esquecem que uma pressão alta é um fator de risco muito mais elevado do que a própria medicação,” disse a ginecologista e obstetra. “Eu posso assegurar que todos os profissionais que trabalham aqui são comprometidos. Aqui não existem assassinos, somos profissionais que trabalhamos com demandas e cumprimos nossas obrigações,” afirma.

Sobre a falta de acompanhamento psicológicos para as gravidas, a doutora Jária disse que as mães ou responsáveis não devem sobrecarregar os agentes de saúde, que elas mesmas, se acharem que suas filhas estão precisando de uma ajuda psicológica, procurasse o Núcleo de Atendimento a Saúde Familiar, NASF para agendar o acompanhamento do profissional.

Ao ser questionada sobre quais procedimentos serão adotados sobre as acusações feitas ao médico Geraldo Pinto e ao hospital, a Secretária afirmou que uma equipe irá acompanhar todo o processo no sentido de apurar os fatos para que sejam tomadas as devidas providencias. Questionada pela reportagem, a Secretária Municipal de Saúde informou ainda que, se constatar irregularidades, irá instaurar uma sindicância para apurar se de fato houve negligência médica.

O Promotor de Justiça da Comarca de São José da Tapera, doutor Luiz Tenório, disse em entrevista que assim que tomar posse dos Boletins de Ocorências (B.O), irá se aprofundar dos fatos e apurá-los com rigor para tomar as devidas providências.