Enquanto a orla de Maceió concentra os grandes eventos e sustenta a imagem turística da capital, o carnaval resiste longe do cartão-postal. No Bom Parto — um dos bairros marcados pelo afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema da Braskem — dois blocos transformam a folia em ato de permanência e denúncia.

O bairro integra o mapa da tragédia que também atingiu Pinheiro, Mutange, Bebedouro e parte do Farol. O desastre, que completa oito anos no próximo 3 de março, resultou na desocupação de cerca de 15 mil imóveis e forçou aproximadamente 60 mil pessoas a deixarem suas casas. 

Em meio às cicatrizes ainda abertas, as ruas do Bom Parto seguem ocupadas pelo som dos tambores. Ali, distante da programação oficial da orla, o carnaval assume outro sentido; não é apenas festa, mas afirmação de território e disputa de narrativa. 

O Bloco do Bobo promove o Carnaval da Rua Sol Nascente 2026 no sábado de carnaval, 14 de fevereiro, a partir das 14h, com concentração no Quintal Cultural — espaço que se tornou ponto de resistência cultural no bairro.

A programação reúne a Ala do Bobo, Batuque das Poderosinhas, Boi Pacato Rei, Boi Fênix, Batuque Mundaú, Boi Caprichoso, Afrodendê, Sururu da Lama, Família Quebrada, Bloco da Inclusão, Ala dos Narcóticos Anônimos, Ala LGBT, Bloco do Coco, Orquestra de Frevo Alan Sax e a Banda de Pife Fulô da Chica Boa. Além da apresentação da Poesia na Trincheira e convidados. 

“É preciso pôr fim à ideia de que Maceió não tem carnaval”

Há quase três décadas, o Bloco do Bobo desfila na localidade. Criado a partir da antiga “brincadeira do bobo”, o grupo ocupa as ruas misturando frevo, maracatu, reggae e marchinhas autorais. O cortejo se mantém no território mesmo diante das transformações impostas pela mineração.

Para o produtor cultural e cofundador Rogério Dyaz, discutir carnaval em Maceió é discutir modelo de cidade. “Não se pode chamar de ‘prévia’ um evento cujos blocos não saem também durante o carnaval. Quando isso acontece, trata-se apenas de uma festa”, afirma.

 

Produtor cultural e cofundador do Bloco do Bloco, Rogério Dyaz – Foto: Divulgação

 

Ele sustenta que o investimento público se concentra nas prévias realizadas na orla, enquanto o período oficial permanece esvaziado nos bairros. “Hoje, o que se chama de prévia conta com um orçamento dezenas de vezes maior do que o destinado ao chamado carnaval. Isso evidencia uma distorção.”

Dyaz defende que a ausência de uma política estruturada de carnaval atinge diretamente as manifestações populares. “É preciso pôr fim à ideia de que Maceió não tem carnaval. O que existe são manifestações carnavalescas isoladas. Carnaval exige que toda a cidade esteja mobilizada, inclusive os bairros.”

Segundo o produtor cultural, quando se naturaliza a ideia de que a cidade não tem carnaval, há um apagamento simbólico. “Quando se sustenta que Maceió não tem carnaval, apaga-se a presença da cultura negra, indígena e popular que forma a identidade da cidade.”

O bairro no mapa da tragédia

O Bom Parto está entre as áreas afetadas pelo crime ambiental provocado pela exploração de sal-gema. O impacto direto foi maior em bairros vizinhos, mas o entorno também sofreu mudanças no fluxo urbano, no comércio e na dinâmica comunitária. 

Em novembro de 2024, a Polícia Federal indiciou a Braskem e outras 20 pessoas por crimes relacionados à mineração em Maceió. Entre os crimes apontados estão poluição qualificada, usurpação de recursos da União e apresentação de estudos ambientais falsos ou enganosos.

O inquérito foi encaminhado à 2ª Vara Federal de Alagoas. As investigações indicam que a atividade não teria seguido parâmetros de segurança suficientes para garantir a estabilidade das minas e a segurança da população na superfície. A PF também apontou indícios de omissão de informações aos órgãos fiscalizadores.

Em dezembro de 2023, a Operação Lágrimas de Sal aprofundou as apurações sobre os crimes ambientais ligados à exploração de sal-gema. Enquanto o processo corre na Justiça, o cotidiano do Bom Parto segue atravessado por uma tragédia que redesenhou a cidade.

Bloco do Bobo, do bairro Bom Parto – Foto: @quintalculturalmcz

 

Um quilombo de resistência carnavalesca

No mesmo território, o Bloco Sururu da Lama, que leva o nome do molusco que é patrimônio imaterial de alagoas, também desfila pelas ruas do território durante o carnaval. Criado em 2014 por integrantes do movimento de maracatu na capital alagoana, o grupo une percussão, cultura lagunar e posicionamento político.

Pesquisador, professor, artista e integrante do bloco desde a fundação, Jeamerson dos Santos relaciona o cortejo à própria experiência de vida. “Eu era morador do Pinheiro, bairro destruído pela Braskem. Sei o que significa ver a sua rua ser interditada, os vizinhos irem embora e a memória do lugar ficar suspensa”, afirma.

 

Pesquisador, professor, artista independente e integrante do Bloco Sururu da Lama, Jeamerson dos Santos – Foto: Arquivo Pessoal

 

Para ele, o Sururu da Lama nasce do compromisso com a cultura popular e com o território. “O nome sempre foi fundamentado na importância da valorização social e monetária da cultura da cidade. Somos um coletivo que defende o fim do racismo cultural em Maceió.”

O pesquisador avalia que o bloco constrói um contraponto à política cultural dominante. “O Sururu protagoniza elementos das culturas de matrizes negras e reafirma um carnaval plural, no contraponto à lógica do poder público que insiste na concentração de recursos e visibilidade na orla.”

A lama que marca o cortejo não é apenas estética. “A presença da lama é também uma forma de alertar para a proteção e preservação da orla lagunar, com toda dignidade que os pescadores e catadores de sururu merecem.”

O integrante define o bloco como espaço coletivo de afirmação. “No carnaval da cidade de Maceió, o bloco torna-se simbolicamente um quilombo de resistência carnavalesca. Em um bairro atingido por um crime socioambiental, ocupar a rua é reafirmar que a cultura segue viva”, finaliza.

Foto de capa: Jadir Pereira / @jadirp